Há muitos mitos e preciosismos envolvidos no preparo de chás. Em linhas gerais, dize-se por aí que quanto mais bacana for o chá, mais complexo e complicado é o seu preparo. Nada mais distante da verdade, pelo menos no que tange os chás chineses especiais. Para estes, quanto melhor for o chá, em geral, mais fácil será prepará-lo e mais ele perdoará qualquer descuido ou deslize que você cometa na hora H. São os chás de qualidade inferior, com os quais nós ocidentais nos acostumamos durante muito tempo, que exigem precisão exagerada no preparo para que a infusão não fique, literalmente, intragável. E, convenhamos, se o chá fica amargo ou não lhe oferece nada de interessante, para que dar-se ao trabalho?

Meus anos de experiência na origem, viajando por diversas regiões da China, conhecendo os principais mestres de chá do país e provando suas obras corroboram esta afirmação. Me vem à cabeça, enquanto escrevo estas linhas, uma manhã nublada na qual subimos o Pico do Leão em Hangzhou para visitar o mestre Weng, produtor de um dos melhores Xi Hu Long Jing que já tomei. Chegando a sua casa, com as portas abertas para a rua e as woks para o Sha Qing das folhas frescas enfileiradas em sua varanda, fomos recebidos pela sobrinha do anfitrião. Toda animada com a nossa chegada, ela nos ofereceu copos de vidro dentro dos quais colocou punhados das folhas achatadas do chá que, por sua vez, foram cobertas com água proveniente de uma garrafa térmica tão grande quanto velha. Contou-nos a sobrinha que a água que eles utilizam neste local, a meca do mais famoso chá chinês, é uma água mineral de boa qualidade fervida diariamente pela manhã em um fogão a lenha e colocada em uma meia dúzia destas garrafas térmicas que ficam fechadas com rolhas de cortiça esperando sua vez de serem utilizadas. Em suma, nada de balança ou colheres de medida; nada de termómetros; e nada de timers ou ampulhetas. Só chá e água. Ou melhor, um ótimo chá, como aquele exemplar se revelou, e uma água bastante decente. É assim que preparo meus chás desde então. Quando estou na Chá Yê! em São Paulo (em minhas viagens costumo mudar o utensílio, utilizando um de nossos Travel Mugs) utilizo um copo americano de 400ml, meço a quantidade de chá na mão, colocando geralmente mais do que o recomendado, e faço questão de ter uma chaleira elétrica por perto para ir colocando água à medida que vou tomando o chá.

 

Obviamente que não estou com isso querendo dizer que não haja pessoas capazes de produzir infusões que elevam tais chás especiais a seu mais alto nível ou que cerimônias e serviços de chá com elementos ritualísticos e artísticos (como Gong Fu Cha, que abordaremos em outro texto desta série) não sejam práticas espetaculares e pra lá de interessantes. O ponto aqui é que se você é um tomador de chá hardcore como eu e toma chá praticamente todo dia o dia inteiro, simplesmente não há como fazer de cada infusão uma obra de arte.

Assim, caro assinante, entenda as dicas de infusão que fornecemos aqui em nosso site como o que elas se propõe a ser – dicas, pontos de partida. Experimente, brinque, com a quantidade de folhas, tempo de infusão, materiais dos utensílios utilizados no preparo e mesmo com a temperatura da água (só não use água muito quente para chás verdes, amarelos ou brancos…isso de fato não funciona). Com experimentos como estes você desenvolverá uma intimidade cada vez maior com o chá, entendendo seu caráter e humor e aprendendo como cada um deles se comporta com pequenas variações de estímulo. Seu repertório crescerá e sua relação com a bebida ficará cada vez mais sólida e orgânica.

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